Projeto Decibéis: Years 3, 4 e 5 pesquisam sobre som e cidadania

O barulho de uma escola costuma ser o retrato da vida pulsando no espaço de aprendizagens. Risadas no parque, conversas animadas no lanche, vozes que se sobrepõem em descobertas e trocas. Mas quando o som ganha intensidade demais, ele pode se tornar um desafio para a vida coletiva. Foi dessa percepção que nasceu o projeto Decibéis, tema do Encontro de Ciclo, que envolve Year 3, Year 4 e Year 5, e que está unindo ciência, relações cotidianas e cidadania em uma mesma proposta.

A ideia surgiu como uma consequência natural da própria vivência escolar, como explica Flávia Belletati, professora do 5º ano. “É comum ouvirmos os sons das crianças em momentos de diversão, mas começamos a notar que, principalmente na hora do lanche coletivo, elas precisavam de mais ajuda de regulação externa para se ouvirem e para manter uma boa dinâmica de grupo. Essa preocupação também apareceu dentro da sala, quando pensamos juntamente com as crianças sobre como o som poderia se tornar desagradável para elas. Foi nesse contexto que o tema dos decibéis começou a fazer sentido como projeto”.

O barulho virou investigação, com o uso de um decibelímetro nos momentos de alimentação. “A decisão de medir os decibéis aconteceu em uma assembleia, envolvendo as crianças, quando todos perceberam que esse cuidado interessava ao coletivo. A partir daí, o registro diário do som passou a fazer parte da rotina da escola” – completa Flávia.

A experiência deu maior significado ao estudo de um conteúdo que já faz parte do currículo do Ensino Fundamental, como detalha Laura Marin, professora do Year 4. “No terceiro ano, eles já estudam o som, então surgiu a ideia de expandir isso para todo o ciclo 2. Medimos diariamente os decibéis no lanche e no almoço, registramos os dados e compartilhamos em uma tabela que fica visível no refeitório. Essa coleta vira material de estudo nos encontros do projeto, que acontecem a cada quinze dias, quando aprofundamos com todas as crianças os conceitos de poluição sonora e saúde, e também trabalhamos pesquisa, leitura e produção de textos, estratégias que fazem parte da metodologia de pesquisa que utilizamos na MAC – Mostra de Artes e Ciências da be.Living, maior projeto da escola, que acontece no final do ano”.

A proposta também reforça o papel do encontro multietário, como destaca Letícia Araújo, professora do Year 5. “Nas experiências de trabalhos entre turmas, as trocas são muito positivas. As crianças se sentem potentes tanto no ensinar quanto no aprender. Os mais novos são desafiados pela complexidade, e os mais velhos exercitam a liderança e a organização. Além disso, o tema traz uma postura cidadã, porque pensar no barulho não é só cuidar de si, mas do outro e do mundo, já que a poluição sonora também afeta o meio ambiente”.

Mais do que medir números, o projeto propõe reflexão e consciência coletiva. “Queremos que as crianças compreendam que regular o volume da voz é uma atitude saudável e sustentável. É uma forma de cuidado com elas mesmas, com a comunidade e com a biodiversidade, porque a alta sonoridade também é um tipo de poluição que interfere no ambiente” – completa Letícia.

O currículo também ganha força nessa abordagem integrada. “As estudantes e os estudantes do Year 4 estão levantando os dados coletados, para transformá-los em gráficos e depois em infográficos, mostrando para toda a escola a partir de que nível os decibéis começam a ser prejudiciais à saúde. Além disso, em língua portuguesa, trabalhamos o gênero ‘ler e escrever para estudar’, que ajuda a criança a grifar informações, interpretar textos e construir bons registros para suas pesquisas” – explica Laura.

No Year 3, os conteúdos de Ciências Naturais e de Língua Portuguesa também se articulam com o projeto. “Anatomia do ouvido e o gênero expositivo aparecem no currículo justamente nesse momento, então o projeto dialoga diretamente com o que estamos estudando no terceiro ano. Todo este trabalho está preparando as crianças para a produção da MAC” – conta a professora Laura.

As produções do projeto no mural interativo expandem a reflexão para as crianças dos Years 1 e 2, e também para toda a comunidade. “A ideia é que o mural envolva a escola inteira, inclusive os menores, que também são impactados pelo barulho. Ele se torna um espaço vivo, reunindo os registros e provocando toda a comunidade para refletir” – acrescenta Letícia.

Segundo as professoras, a proposta ganhou força porque vai além do aspecto científico do estudo. “O mais interessante é que as crianças percebem que medir os decibéis não é só um experimento de ciência. É uma forma de pensar em como nos relacionamos, em como cuidamos uns dos outros e em como nossas atitudes reverberam no coletivo” – conclui Flávia.

O projeto Decibéis mostra, na prática, como a aprendizagem na be.Living é feita de atravessamentos entre ciência e vida, pesquisa e significado, teoria e prática. “É desse jeito que ajudamos as crianças a olharem para suas atitudes e a pensarem em quais intervenções podem fazer para melhorar o ambiente para todos” – afirma Letícia.