O valor pedagógico do acampamento: aprendizagens que colocam a criança no mundo

Para muitas crianças do Ensino Fundamental da be.Living, o acampamento é uma das experiências mais aguardadas do ano. A expectativa pelos dias fora da rotina, a convivência intensa com os pares e a aventura de estar longe de casa em um lugar que desperta interesse, podem gerar os mais diversos sentimentos: da empolgação à ansiedade, da curiosidade à insegurança. Assim, a experiência do acampamento vai muito além de um momento de integração e diversão, sendo pensado e vivenciado como uma ferramenta pedagógica potente, planejada para ampliar aprendizagens fundamentais para a formação das crianças.

Segundo a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental, Gabriela Fernandes, a proposta está diretamente conectada a dois eixos centrais do trabalho desenvolvido pela escola: os objetivos atitudinais e os procedimentais. “O acampamento é uma ferramenta pedagógica que gera crescimento, desenvolvimento e progressões de aprendizagem. Ele trabalha especialmente objetivos que colocam a criança no mundo: saber conviver, cuidar de si, tomar decisões, lidar com desafios e realizar tarefas com autonomia”, explica.

Na prática, isso significa viver experiências concretas que convocam as crianças a agir no mundo de forma ativa e responsável. Arrumar a cama, organizar a mala, cuidar dos próprios pertences, lembrar da higiene pessoal, escolher uma atividade, administrar o tempo e lidar com pequenos imprevistos fazem parte de uma sequência de ações que mobilizam planejamento, execução e reflexão, ou seja, capacidades diretamente ligadas ao desenvolvimento das funções executivas. “A criança vivencia esse trajeto do saber fazer: ela planeja uma ação, realiza e encerra. Estamos falando de situações que vão desde arrumar a cama até lidar sozinha com questões do autocuidado. Isso estrutura aprendizagens muito importantes para essa faixa etária”, destaca Gabriela.

Essas experiências acontecem com acompanhamento constante da equipe pedagógica da escola e das educadoras e educadores do acampamento, o que garante que cada desafio vivido se transforme em contexto real de aprendizagem. Nesta construção de conhecimentos, há um aspecto essencial: o afastamento temporário da família. Cuidadosamente mediado, esse distanciamento de casa oferece à criança a oportunidade de experimentar outras formas de autonomia, de colocar em prática aquilo que já sabe fazer e de descobrir novas possibilidades de ação a partir de outros referenciais.

“Quando retiramos a criança, ainda que por pouco tempo, desse lugar familiar, ela tem a oportunidade de viver outras maneiras de fazer e de se perceber capaz a partir de outros olhares”, afirma a coordenadora. Essa experiência intensifica também a convivência entre pares. As crianças observam umas às outras, aprendem juntas, se apoiam e constroem vínculos de cuidado e afeto em situações reais de desafio compartilhado. “É muito bonito observar como elas estabelecem relações de cuidado, porque estão todas vivendo emoções parecidas. É vivenciado um processo muito intenso de construção de comunidade.”

Embora aconteça fora do espaço escolar, o acampamento mantém como pano de fundo os princípios que organizam a vida na be.Living: escuta, equidade, acolhimento e construção coletiva. Em um ambiente novo, diante de desafios diferentes e de uma rotina que rompe com o esperado, as crianças entram em contato com experiências que ampliam a compreensão sobre si mesmas e sobre o mundo.

Esse processo mobiliza emoções intensas e esse também é um território fértil de aprendizagem, segundo a coordenadora. Estar fora de casa, dormir em outro ambiente, lidar com novidades e administrar expectativas cria oportunidades valiosas para que as crianças reconheçam medos, nomeiem desconfortos e descubram recursos internos para enfrentá-los. “A criança vive a emoção e, com apoio das professoras e dos professores, consegue pensar sobre ela. Quando pensamos sobre a emoção, ela vira sentimento, e aprender a lidar com os sentimentos sustenta todo o processo de aprendizagem”, explica Gabriela.

Quando sentimentos desafiadores emergem, o trabalho da escola não está em eliminá-los ou evitá-los, mas em ajudar cada criança a construir uma relação possível com aquilo que sente. A escuta atenta das educadoras e educadores permite que cada necessidade seja acolhida de forma singular, criando estratégias concretas para que a criança atravesse aquele desafio emocional com segurança, confiança e suporte. Mais do que oferecer respostas prontas, o processo busca fortalecer recursos internos para que, gradualmente, cada uma encontre suas próprias formas de lidar com o desconforto, com o medo e com o inesperado.

Por isso, a experiência começa muito antes da viagem. Ao longo das semanas que antecedem o acampamento, a escola realiza um trabalho de preparação emocional e prática com todas as turmas, respeitando as necessidades específicas de cada faixa etária. Conversas, referências do universo do acampamento e atividades voltadas à elaboração dos sentimentos ajudam as crianças a refletirem sobre seus desejos, receios e expectativas. “Nosso papel é promover a escolha, desvinculando um pouco da decisão da família e ajudando a criança a perceber o que ela sente e o que pensa sobre essa experiência”, afirma.

As famílias também participam desse processo, especialmente no primeiro ano, quando a escola orienta práticas de fortalecimento da autonomia em casa, como banho, organização de pertences e autocuidado. Saber escolher, organizar, tomar decisões, refletir sobre desconfortos e encontrar caminhos para resolvê-los são habilidades que se constroem. Tudo faz parte de um desenvolvimento que se fortalece tanto antes quanto durante o acampamento.

No quinto ano, essa preparação ganha ainda outra dimensão. Como parte de um ritual de passagem para o ciclo 2 do Ensino Fundamental, as crianças participam da construção da programação, definindo atividades e elementos da experiência coletiva. Mas o protagonismo atravessa todas as idades: aparece quando uma criança escolhe entre atividades, decide participar ou não de uma proposta, cuida da própria rotina ou se responsabiliza pelos próprios pertences.

“Quando a criança aprende a tomar decisões e encontra maneiras de lidar com os desafios, ela desenvolve competências que atravessam toda a aprendizagem”, ressalta Gabriela. Na perspectiva da escola, essas habilidades não estão separadas do desenvolvimento acadêmico, ao contrário, sustentam-no. “Quando a criança sabe estar no mundo, sabe cuidar de si e fazer boas escolhas, ela também fará isso diante de um problema matemático ou na escrita de um texto. Está tudo profundamente vinculado”, afirma a coordenadora.

Ao final da experiência, o que permanece são memórias afetivas de uma aventura que se viveu junto e, também, conquistas silenciosas, como descobertas internas e a ampliação concreta da capacidade de estar no mundo com mais autonomia, presença e confiança.