“O eu, o outro e o nós”: como as crianças da educação infantil aprendem a lidar com os sentimentos

Ser criança é um eterno descobrir o mundo. Você já reparou como os pequenos são abertos, curiosos, perceptivos e sensíveis? Para eles, tudo é muito novo e intenso, e todo instante pode conter uma imensa emoção. Cada experiência vivida é sempre uma descoberta que vai revelando, aos poucos, mais sobre o eu, o outro, as relações interpessoais e a coletividade.

É na primeira infância, convivendo com seus pares e também com os adultos, que as crianças pequenas começam a constituir um modo próprio de ser, agir, sentir e pensar. Entre os três e quatro anos de idade, elas estão em transição, saindo da fase egocêntrica e começando a compreender que as outras pessoas também têm sentimentos.  Percebem que há diferentes modos de vida, que as pessoas são distintas e que, na vida, há múltiplos pontos de vista. Por isso, é importante criar, constantemente, abordagens que estimulem seu desenvolvimento socioemocional.

Para Joara Imparato, coordenadora da Educação Infantil da be.Living, expressar os sentimentos, falar sobre eles e aprender a nomeá-los é bastante prazeroso mas, também, desafiador para as crianças. “No Red temos um projeto anual que faz parte do Campo de Experiência “O eu, o outro e o nós”, da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que tem como objetivo ajudar as crianças nesta comunicação. E como possibilitar isso? Na escola, damos muita importância às diferentes linguagens que podem ser usadas na construção de qualquer conhecimento. Usamos diferentes estratégias para tornar visível o que as nossas crianças sentem. Por isso, o desenho, a música, a literatura infantil e as práticas de mindfulness estão presentes no dia a dia”.

Ela explica que o aprendizado acontece por meio do brincar, do participar, das explorações e das interações com as outras crianças. “A todo momento é possível observar interações e, através delas, as aprendizagens acontecem e ganham força. Aprende-se brincando, nas trocas com os pares, nas experiências coletivas, nas relações que se ampliam. A convivência torna tudo mais gostoso mas é, também, um exercício constante de olhar para o outro, de colocar-se no lugar do outro, de aprender a respeitar seus sentimentos, suas opiniões e suas preferências”.

A professora Tatiane Rigonati, do Green e do Red, diz que neste momento de isolamento social é preciso, mais do que nunca, trabalhar as questões relacionadas ao emocional. “Acho que neste ano, devido ao momento que estamos vivendo, este trabalho tornou-se ainda mais essencial. Com a quarentena, apareceram emoções muito fortes como saudade, medo e angústia, e é importante oportunizarmos momentos e situações para que as crianças lidem, falem e aprendam a nomear estes sentimentos”.

Neste período, as lives têm sido muito importantes para possibilitar encontros onde as crianças possam conversar e trocar umas com as outras. Questionando as crianças sobre “how are you feeling today?” e perguntando para elas a razão ou o motivo daquele sentimento, as professoras criam um momento para que os pequenos possam falar e compartilhar as emoções.

“Quando possibilitamos e proporcionamos momentos, propostas e situações em que as crianças podem falar sobre suas emoções, extravasá-las e demonstrá-las, seja por meio da fala, de gestos ou se expressando artisticamente por pintura ou desenho, nós estamos valorizando e mostrando à elas que o que elas sentem é muito importante. Elas começam a entender que os sentimentos têm um significado e, assim, elas passam a ter a consciência de si, do mundo que habitam, das suas alegrias, tristezas e desejos. E conhecendo a si mesmas e aos seus sentimentos, elas passam a criar condições de perceber o que as outras pessoas podem sentir e compreender o que cada sentimento causa ao próximo também” – explica Tatiane.

A professora Diane Barbosa Moreira, do Red, conta que além das lives, estratégias como a literatura têm sido fundamentais para ampliar o modo de percepção que as crianças têm de si mesmas e dos outros. “Por meio de leituras como “The color monster”, “I am peace” e “In my heart”, proporcionamos discussões que relacionam o conteúdo do livro com as experiências que as próprias crianças já vivenciaram. Com isso, é possível desenvolver um olhar cuidadoso para o outro, cultivar a empatia e o diálogo. As crianças gostam de falar sobre si e precisam de ferramentas para poder se expressar”.

Ela lembra que falar sobre sentimentos e emoções é algo desafiador até mesmo para os adultos, por isso, realizar um trabalho neste sentido desde pequenininho é tão importante. “Às vezes, desenvolvemos atividades que despertam o olhar das crianças para suas próprias características e de seus amigos, com o intuito de valorizarem a si mesmas e celebrarem os outros como são, com suas especificidades e jeitos de ser.

Outras vezes, desenvolvemos uma tabela de sentimentos para que, juntas, as crianças tenham a oportunidade de falar sobre o que as incomoda ou o que as agrada. Em outros momentos, trabalhamos com um “mood tracker”, que é algo pessoal, para que elas mesmas consigam ver como se sentiram ao longo do mês e pensar no que podem fazer quando estiverem bravas, frustradas ou tristes.“Será que conversar ajuda?”, perguntamos. O objetivo é proporcionar para elas um espaço seguro de compartilhamento, de escuta e de fala”.

Com o objetivo de aprofundar o processo de autoconhecimento dos pequeninos, a professora Renata Ottoniel, do Red, realiza práticas de mindfulness com as crianças. “A construção do eu e o autoconhecimento também passam pela questão do autocuidado, de refletir sobre o que eu posso fazer por mim mesmo para que eu possa me sentir melhor: ler um livro, brincar com a minha família, fazer uma prática de meditação ou comer uma coisa que eu gosto, ainda mais neste momento de quarentena quando tem sido importante buscar fazer coisas positivas, que a gente curte, para não sermos tão afetados  somente pelo lado negativo. Eu vejo todas as práticas que fazemos como um processo de descoberta e desenvolvimento da subjetividade, de quem sou eu, individualmente, e de quem sou eu como um sujeito no mundo”.

A professora explica que conforme vai se nomeando os sentimentos e trazendo possibilidades de reflexão e discussão, seja por meio de histórias, brincadeiras, conversas ou mindfulness, a criança começa a relacionar aquilo que está aprendendo no presente com histórias e situações marcantes que já vivenciou no passado. “Como, por exemplo, uma criança que, agora no ensino remoto, trouxe uma fala relacionando um sentimento vivido numa situação em casa, com uma leitura que fizemos durante a aula. No livro “A Rainha das cores”, há um momento em que a personagem fica confusa e isto é representado com muitas cores juntas. No entanto, quando a criança foi contar a história dela, ela trouxe uma percepção própria, dizendo que quando se sentiu feliz e animada e começou a correr pela casa, ela podia ver e sentir todas as cores. Então, tem uma percepção sendo desenvolvida que é do coletivo e ao mesmo tempo, uma percepção que é do individual, da subjetividade de cada criança”.

Outra forma de trabalhar os sentimentos, com brincadeira e leveza, é por meio da arte e da música. Quando a criança entra em contato com uma obra, é possível relacionar cores aos sentimentos, compartilhar o que sentiu quando viu a obra ou imaginar o que o pintor sentia quando a pintou. Com relação ao universo da música, cantar, dançar e tocar diferentes instrumentos possibilitam uma grande expressão, que une os próprios sentimentos da criança aos sentimentos que a música e o som causam à ela, ampliando seu repertório e o conhecimento que ela tem sobre ela, os outros e o mundo.