Na sala, no parque ou em um momento de roda de conversa, as crianças pequenas estão, diariamente, vivendo experiências que carregam uma profundidade essencial para a formação humana. Em meio a descobertas, conflitos e interações, a Educação Infantil promove um processo fundamental: o início da construção da moralidade.
Esse processo se dá a partir de vivências concretas e mediadas por educadoras e educadores atentos, que convidam a criança a perceber o outro e a refletir sobre as consequências de suas ações.
“Quando falamos sobre moralidade infantil, estamos falando de um processo que passa por etapas. No início da vida, a criança está numa fase egocentrada, que chamamos de anomia, em que ela ainda não reconhece o outro como alguém diferente dela mesma. Depois, começamos a observar a fase da heteronomia, quando, com o apoio de um adulto, ela passa a perceber que suas ações podem afetar os outros e começa a ser provocada a refletir sobre isso” – explica Camila Maia, coordenadora pedagógica da Educação Infantil da be.Living.
É nesse momento que o trabalho intencional dos educadores se torna ainda mais potente. Em situações de conflito – como o uso do corpo na interação ou a disputa por brinquedos – os adultos intervêm, principalmente, para ampliar o repertório emocional e relacional das crianças. “Nestes casos, a professora vai perguntar: ‘Como acha que o seu amigo se sentiu?’, ‘O que você poderia fazer de diferente?’. E, junto com isso, ela vai oferecendo referências. Muitas vezes, a escolha que a criança fez foi a única que ela conseguia fazer naquele momento. Então mostramos outras possibilidades: conversar, pedir ajuda, esperar. Esse trabalho de mediação e ampliação de repertório é fundamental para que, com o tempo, ela possa escolher agir de outra forma, na medida em que começa a entender ou pensar sobre as consequências de seus atos” – explica a coordenadora.

Ao lado dessa mediação cotidiana, entram em cena os combinados, construídos com as próprias crianças e registrados visualmente nas salas. Esses acordos funcionam como referências acessíveis, ajudando as crianças a retomarem, por si mesmas, reflexões sobre convivência e cuidado com o grupo.
“Como estamos falando de crianças pequenas, que estão na fase do pensamento concreto, os combinados materializam as conversas que temos com elas. E é importante que estejam visíveis, porque isso também favorece o desenvolvimento da autonomia, na medida em que, espontaneamente, elas podem olhar, lembrar, e conversar sobre eles. Inclusive, orientamos as famílias a fazer parecido em casa” – conta Camila.
Conforme o tempo vai passando, os grupos vão sendo convidados a revisar e adaptar esses combinados, se necessário. O processo deixa de ser só um lembrete visual e se transforma em uma ferramenta de participação e corresponsabilidade na construção de um ambiente respeitoso.
Nesse percurso, também ganha destaque o trabalho com os limites — entendidos como contornos que organizam a vida em sociedade. “Quando falo de limite, estou falando da percepção do meu contorno e do contorno do outro. É o que me ajuda a entender até onde eu posso ir sem atravessar o espaço do outro. Isso precisa ser construído com coerência e afeto, em todos os ambientes nos quais a criança transita — seja na escola, seja em casa” – destaca Camila.
Com este trabalho cuidadoso e constante, as crianças começam a trilhar o caminho em direção à autonomia moral – etapa que será aprofundada no Ensino Fundamental. Na Educação Infantil, o essencial é provocar reflexões, oferecer ferramentas e ajudar cada criança a perceber que ela está inserida em uma rede de relações e que suas escolhas têm impacto no mundo ao seu redor.




