Jornal do Year 4: Formando leitores críticos em tempos de desinformação

Em um mundo marcado por fluxos incessantes de informação, em que notícias circulam com velocidade e nem sempre com compromisso com a verdade, aprender a ler criticamente é uma habilidade fundamental. 

Em 2025, as crianças do Year 4, olharam profundamente para esta questão e desenvolveram um projeto potente: o “Jornal do Year 4”. A proposta pedagógica possibilitou que as crianças ocupassem diversos lugares relacionados ao mundo da informação, como o lugar de leitoras, de pesquisadoras e de produtoras de notícias, convidando-as para refletir sobre verdade, ponto de vista, fonte e responsabilidade na comunicação.

Desenvolvido ao longo do terceiro trimestre, o projeto dialogou diretamente com o currículo de Língua Portuguesa do quarto ano, que tem no trabalho com o gênero textual da notícia um de seus eixos centrais. “Trabalhamos diversos aspectos da notícia, tanto textuais quanto gramaticais, como a importância dos verbos, dos títulos e o uso do tempo presente, que ajuda a indicar a atualidade e a relevância do fato”, explica a professora Laura Marin. Ela afirma que mais do que uma aprendizagem técnica, o estudo do gênero é entendido como um exercício de leitura de mundo.

Esse olhar crítico não surgiu apenas no momento do projeto final, que culminou propriamente no jornal. Segundo a professora, ele foi construído desde o início do ano letivo. O currículo do Year 4 é marcado por um trabalho intenso sobre pontos de vista. “Desde o começo do ano, conversamos muito sobre a diferença entre verdade e ponto de vista, e sobre o cuidado que precisamos ter quando vamos emitir uma opinião”, afirma Laura. Essa base conceitual sustenta o aprofundamento posterior no jornalismo, em que a pergunta central passa a ser: qual é o compromisso de quem informa?

Ao analisar manchetes, reportagens e notícias com entrevistados, as crianças foram aprendendo a identificar onde está o fato, onde entra a opinião e como a presença de diferentes vozes contribui para a construção de diálogo. “Fomos entendendo qual é o lugar da opinião dentro de uma notícia e como isso é diferente de inventar ou distorcer um fato”, comenta a professora. Nesse processo, o tema das fake news aparece não como um assunto abstrato, mas como uma questão concreta do cotidiano.

O ponto de partida do projeto foi a leitura do livro “Esquadrão Curioso: os caçadores de fake news”, de Marcelo Duarte, escolhido como leitura de férias. A obra despertou grande interesse nas crianças, ao apresentar personagens que investigam notícias divulgadas nas redes sociais e checam a veracidade das informações. “Esse livro chegou muito forte para eles. A partir da leitura, a turma sentiu necessidade de compartilhar o que estava aprendendo e começou a produzir cartazes para a sala de leitura da escola, alertando outras turmas sobre a importância de verificar informações”. 

Segundo Laura, os cartazes reuniam orientações práticas: checar se a notícia tem autor, data e local, observar se o veículo publica outras matérias confiáveis e comparar a informação com outras fontes. Esse trabalho dialogou também com outras frentes da escola, como a MAC – Mostra de Arte e Ciências da be.Living, em que a pesquisa científica exige o uso de fontes seguras. “Conversamos muito sobre como pesquisar bem, porque sem boas fontes não existe pesquisa séria”, conta Laura, mostrando como o projeto atravessou diferentes áreas do conhecimento.

O repertório jornalístico, no entanto, não se limitou a um momento específico. A leitura de notícias e a análise de fatos estiveram presentes ao longo de todo o ano letivo, criando uma base sólida para que, no terceiro trimestre, as crianças pudessem produzir seu próprio jornal. As pautas nasceram do interesse do grupo, sempre considerando que o jornal circularia dentro da escola e dialogaria com toda a comunidade escolar.

O resultado foi um jornal com seis notícias, que refletem tanto o olhar das crianças sobre o mundo quanto os valores trabalhados pela escola. A primeira matéria, construída coletivamente, abordou justamente o tema das fake news, reunindo informações do livro e de outras leituras feitas ao longo do ano. “Foi uma produção coletiva que sintetizou muito do que o grupo vinha estudando”, destaca a professora.

Outras pautas revelam a atenção das crianças ao contexto cultural, social e ambiental. Uma das estudantes escreveu sobre a 36ª Bienal de São Paulo, visita pedagógica realizada por toda a escola. Para isso, pesquisou a história do evento, entrevistou crianças do Year 1 sobre a primeira experiência na Bienal e aprofundou-se no tema da edição, inspirado em um poema de Conceição Evaristo. A escolha da pauta mostrou a percepção da criança sobre a relevância cultural do evento na cidade onde vive.

Outra matéria foi dedicada à MAC. A estudante responsável pela reportagem entrevistou crianças de diferentes turmas e também a coordenação pedagógica, buscando compreender por que a mostra é um evento tão significativo. “Ela trouxe a importância de ouvir as raízes da escola, de entender por que a MAC existe e como ela contribui para o processo de aprendizagem”, relata a professora do Year 4.

O jornal também abriu espaço para temas globais, como a COP30, realizada este ano em Belém. A matéria destacou a trajetória da conferência e enfatizou a participação de crianças e jovens no evento, relacionando o tema às discussões frequentes da escola sobre mudanças climáticas e responsabilidade intergeracional. Informações trazidas por meio de entrevista com a engenheira ambiental Livia Ribeiro, da Reconectta, que é parceira da escola na área de sustentabilidade, ajudaram a enriquecer a reportagem com dados e contexto.

O universo esportivo também apareceu em uma notícia sobre o novo formato do Mundial de Clubes da FIFA, escolhida por uma criança interessada em futebol. A reportagem destacou a participação dos times brasileiros e o marco histórico da presença de uma equipe feminina na semifinal, conectando o interesse pessoal do estudante a um fato relevante do cenário esportivo.

Por fim, uma das matérias abordou o impacto da inteligência artificial no ambiente escolar. O tema dialogou com um trabalho realizado em parceria com o Year 5 e retomou discussões centrais do projeto: a importância das boas fontes e o uso consciente das ferramentas digitais. “A reportagem lançou a reflexão de que a inteligência artificial pode ser uma ferramenta potente, mas que exige muito cuidado e atenção”, comenta a professora.

Mais do que um produto final, o Jornal do Year 4 foi um processo formativo profundo. Ao investigar, entrevistar, escrever e revisar, as crianças exercitaram autonomia, responsabilidade e pensamento crítico. Em tempos de desinformação, aprender a perguntar “de onde vem essa notícia?” e “posso confiar nessa fonte?” é um gesto educativo poderoso. Na escola, o gênero textual notícia tornou-se ferramenta de formação cidadã, preparando as crianças para ler o mundo com mais consciência, rigor e sensibilidade.