Entre o corpo e a cidade: Um estudo do Y4 e do Y5 que conecta alimentação, memória e patrimônio

O que acontece quando o que se aprende na escola encontra o mundo do lado de fora? No encontro entre perguntas, experiências e descobertas, o conhecimento ganha forma, sentido e vida. É neste contexto que nasce um estudo realizado com a turma multisseriada do Year 4 e Year 5 da be.Living, que entrelaça Ciências Sociais e Ciências Naturais em um percurso investigativo que já aponta para um desdobramento concreto: uma saída pedagógica ao Mercado Municipal de São Paulo, solicitada pelas próprias crianças.

O trabalho começou a partir de um olhar para dentro: o corpo humano. Em Ciências Naturais, iniciou-se uma investigação sobre a alimentação vivenciada na escola, um tema próximo, cotidiano e cheio de significado para as crianças. “Refletimos um pouco sobre a alimentação deles aqui na escola. A partir do que eles vivenciam, eles pensaram sobre o que seria uma alimentação saudável, o que seria um bom prato, considerando diversos aspectos, da nutrição ao sabor”, conta a professora Letícia Araújo. A partir dessas reflexões, as crianças exploraram nutrientes e passaram a investigar o percurso dos alimentos no corpo humano, utilizando diferentes linguagens e materiais para construir ideias e compreender processos. Entre os recursos de aprendizagem, foram utilizados manequim anatômico, jogos de memória e aplicativos educacionais. Foram situações muito potentes, marcadas por trocas entre as crianças, nas quais puderam elaborar ideias, confrontar pontos de vista e reconhecer que já traziam muitos saberes sobre o tema, ampliando seus conhecimentos prévios. A sequência de atividades culminou na criação de pratos específicos pelas estudantes e pelos estudantes, que passam a integrar o cardápio da escola.

Esse estudo dialoga diretamente com a forma como a alimentação é compreendida na be.Living: não apenas como nutrição, mas como experiência, cultura e relação. O momento da refeição é um espaço de aprendizagem, onde sentidos, memórias e escolhas se entrelaçam, ampliando a consciência das crianças sobre o que consomem e como isso impacta seus corpos e suas vidas.

Ao mesmo tempo em que olhavam para seus corpos, em Ciências Sociais, o olhar se voltava para fora: a cidade. A partir do livro “São Paulo, a minha cidade”, do artista chileno radicado na capital paulista Andrés Sandoval, as crianças começaram a mapear suas próprias relações com São Paulo. Mais do que um livro informativo, a obra apresenta as particularidades significativas da cidade a partir do olhar de Andrés, revelando como ele observa o movimento da metrópole em seus detalhes perceptíveis e imperceptíveis. Composto por um mapa com marcos culturais e territórios ilustrados e descritos de forma intimista, o livro revela a diversidade, a paixão e as nuances que transbordam vida em cada um dos elementos que compõem a São Paulo do autor. “No processo de leitura, as crianças expuseram sobre o que conheciam da cidade. Então, desenharam mapas a partir das próprias experiências”, explica a professora Laura Marin. A partir dessas representações, o estudo avançou para a compreensão de patrimônio e memória, voltando o olhar para bens materiais e imateriais que representam a história e a identidade de um povo. A professora explica que este conhecimento foi sendo conectado às vivências das crianças, desde o caminho que percorrem de suas casas até a escola, até os lugares que já visitaram ou observam ao transitar pela cidade. E foi na atividade “Meu lugar em São Paulo”, que contou com a participação das famílias, que esse conceito ganhou ainda mais vida. As crianças levaram para casa a proposta de investigar por onde elas e suas famílias circulam na cidade e qual é o lugar preferido de cada membro familiar, ampliando o olhar sobre as relações que constroem com os espaços que habitam.

A família da estudante Gabriela Maia, do Year 5, trouxe o Mercado Municipal como um lugar significativo de sua trajetória. Seu avô foi dono de um restaurante e frequentava o Mercadão para comprar ingredientes, estabelecendo uma relação próxima com o espaço. Com o tempo, essa vivência se transformou em memória afetiva, compartilhada e mantida por toda a família. A partir desse relato e do interesse da turma em saber mais detalhes sobre a história, o pai da estudante foi convidado a conversar com as crianças. O encontro despertou ainda mais a curiosidade do grupo e, mobilizadas pelo que estavam investigando, as próprias crianças solicitaram uma saída pedagógica ao Mercadão.

O Mercado Municipal de São Paulo é um dos principais patrimônios históricos e culturais da cidade. Conhecido por sua arquitetura e pelos vitrais que retratam cenas do cotidiano e da produção agrícola, o espaço é tombado como patrimônio material pelos órgãos de preservação estadual e municipal. Mais do que sua estrutura física, o Mercadão carrega uma forte dimensão cultural, ligada às práticas alimentares, aos encontros e às histórias que ali se constroem. E é nesse ponto que os dois percursos de aprendizagem se encontram.

“É a ideia da alimentação também como uma ideia de prazer e patrimônio. O que antes era uma investigação sobre o corpo passa a dialogar com os modos de viver a cidade, com os lugares onde a comida circula, com as histórias que atravessam os alimentos. O estudo se expande e se torna mais complexo, mais conectado, mais real”, explica a professora Letícia.

A saída pedagógica ao Mercadão surge, então, como desdobramento natural desse processo. Mais do que um passeio, ela se configura como uma experiência de aprendizagem na cidade, um momento em que as crianças podem vivenciar, observar e ressignificar aquilo que vêm construindo na escola. “Na be.Living, as saídas pedagógicas são compreendidas como parte essencial do processo educativo. São oportunidades de investigação, aprofundamento e síntese, em que o conhecimento ultrapassa os muros da escola e a aprendizagem se torna ainda mais significativa”.

Por meio deste trabalho cheio de sentido, as crianças do Year 4 e do Year 5 não apenas estão adquirindo conhecimento sobre o corpo ou sobre a cidade, mas estão experienciando uma forma de estar no mundo: curiosa, investigativa, conectada e sensível às relações que nos constituem.