Em livro, Blue apresenta personalidades indígenas importantes para se conhecer

Era uma vez um grupo de crianças que adorava literatura: o Blue! Entre livros, histórias e personagens, as crianças descobriram que havia poucos títulos com protagonistas indígenas ou escritos por autores indígenas, sobretudo em inglês. Essa ausência despertou curiosidade, e a curiosidade abriu caminho para a investigação. Foi assim que nasceu o livro bilíngue “Important Indigenous People to Know” ou “Personalidades indígenas importantes para se conhecer”, uma produção coletiva que entrelaça memória, linguagem e cuidado com o mundo.

“A literatura é um potente instrumento para ampliar conhecimentos sobre educação para as relações étnico-raciais. A falta de títulos com protagonismo indígena provocou as crianças e, a partir disso, iniciamos uma pesquisa”, conta Eduarda Aranha, professora do Blue. A turma mergulhou em descobertas sobre povos indígenas do Brasil, com especial atenção às pessoas e suas trajetórias: médicos, professores, escritores, ativistas e artistas. O mapa do país se transformou em um grande painel vivo, no qual as crianças posicionaram nomes e histórias pelo território, aproximando geografia, cultura e pertencimento. “As crianças foram entendendo que existem indígenas em todos os âmbitos da sociedade e em todos os lugares do Brasil”, explica Eduarda.

Esse percurso dialoga com o projeto anual do grupo, “This is Me Now and Then “, dedicado ao resgate de memórias e ritos de passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. “Memória, ancestralidade e sentimentos que emergem desse encontro estão presentes nestes dois projetos. Tudo se conversa”, afirma Eduarda. A professora diz, ainda, que a investigação também se conectou ao trabalho de sustentabilidade realizado pelo grupo: o Blue atua como “guardião de mudas” da Mata Atlântica ao longo do ano, fortalecendo na prática a ética de cuidado com a natureza, dimensão historicamente defendida pelos povos indígenas.

Enquanto pesquisavam e ouviam histórias, as crianças também viviam intensamente o processo de alfabetização. “A alfabetização foi vivida como prática social integrada ao projeto, não como algo apartado”, explica Carolina Fioco, que também é professora do grupo. O trabalho com a linguagem escrita aconteceu de forma natural e significativa. Antes de criar o mapa ilustrado, as crianças elaboraram uma lista de elementos indígenas que gostariam de representar. Depois, criaram a legenda do mapa, que é um gênero textual que estavam estudando, em escrita convencional, com o suporte das professoras. “Foram momentos riquíssimos de reflexão: observar letras, sons, regularidades, pedaços de palavras que reaparecem em outras, tudo ampliando repertório”, conta Carolina.

Na segunda etapa, já em inglês, a turma construiu coletivamente os textos sobre cada personalidade indígena. As crianças organizavam oralmente as ideias, e os professores atuavam como escribas, transformando a fala em escrita. “Reforçamos a função social da escrita: não escrevemos por escrever. Escrevemos  para comunicar algo importante às pessoas”, diz Carolina. A cada revisão, as crianças identificavam o que precisava de complemento ou ajuste, exercitando autoria e consciência de leitor.

O mesmo olhar atento e curioso marcou a produção das ilustrações. Desde o início, as crianças foram convidadas a observar imagens e objetos relacionados às culturas indígenas, como moradias, vestimentas, grafismos, pinturas corporais, instrumentos, brincadeiras. “Chamávamos atenção para os detalhes e para os modos de fazer, relacionando forma, função e cultura”, explica Carolina. As crianças também estudaram cores de pele, misturando tintas até chegar a tons mais próximos da realidade observada. “O amarelo com vermelho para peles mais quentes, o azul para escurecer, variações com amarelo para tons mais amarelados”, explica Eduarda. “O desenho não foi só reprodução visual, foi memória em ação: cada traço vinha acompanhado de explicações e lembranças das histórias que haviam escutado.”

Quando chegou o momento de escolher quais personalidades entrariam no livro, as crianças já conheciam muitas delas. As pesquisas, imagens e biografias estavam expostas na sala, e os nomes se tornaram parte da rotina do grupo. Estão presentes no livro Renata Machado, conhecida como Aratykyra, jornalista que entrevista e escreve sobre os direitos e a cultura dos povos indígenas, e o professor, escritor e ativista Ailton Krenak, entre outros. A decisão foi coletiva e afetiva: “Os critérios foram afinidade, admiração e o quanto já conheciam de cada trajetória”, conta Eduarda. A turma também recebeu a visita do professor de música da escola, Vinícius Medrado, que também é escritor, e contou sobre as etapas de criação de um livro, da escrita à impressão, inspirando as crianças a assumirem seu próprio papel de autoras.

O lançamento foi um capítulo à parte. Nossa escola se transformou em espaço de celebração e partilha, com a presença das famílias e a participação da professora Amanda Ribeiro, de Cultura Brasileira, que conduziu vivências com canto Guarani Mbya e pintura corporal inspirada em grafismos. As crianças apresentaram o projeto, assistiram à versão digital do livro no telão e receberam o volume impresso de sua obra. “Ver os olhos brilhando, ouvir cada criança explicando o mapa e falando das personalidades foi emocionante. As famílias compreenderam a importância da educação para as relações étnico-raciais”, afirma Eduarda. “Nosso objetivo é formar indivíduos antirracistas: crianças que entendam que não há espaço para o racismo ou a segregação, e que reconheçam a diversidade como riqueza.”

O livro do Blue nos lembra que alfabetizar é dar autoria, que desenhar é expressar ideias e sentimentos por meio de imagens, que sustentabilidade é prática cotidiana, e que a escola é lugar de reparar ausências e abrir caminhos. Como disse a professora Carolina, “escrevemos para comunicar algo importante”. E as crianças do Blue comunicaram: há pessoas indígenas que todos precisamos conhecer, não apenas nos livros, mas na vida que compartilhamos.

Conheçam, abaixo, algumas páginas desta obra: