Do Blue para o Year 1: Memória, pertencimento e preparo

No calendário e no coração da Educação Infantil da be.Living, o Blue ocupa um lugar singular. É ali que a infância conclui um longo ciclo de experiências, vínculos e conquistas, ao mesmo tempo em que nasce a curiosidade pelo ano seguinte, quando essas crianças chegam ao Year 1 do Ensino Fundamental.

Camila Maia, coordenadora pedagógica da Educação Infantil, explica que esse momento da vida escolar é marcado por intenções pedagógicas contínuas e muito sensíveis ao processo de crescimento das crianças. 

Ao falar de transição, a coordenadora faz uma observação importante: a passagem não é só um movimento de apontar para o que virá, mas principalmente de reconhecer o que já foi vivido. “Nos últimos quatro anos, nos empenhamos em fortalecer ainda mais esses cuidado com a transição, com ritos bem definidos e projetos voltados para esse olhar, o que tem feito muita diferença no processo das crianças.”

Ela conta que em 2021, a escola estruturou e consolidou com maior intenção e continuidade o projeto “This is me, now and then”, que conduz um resgate de memórias de forma ativa. Trabalhado em inglês e português,  as crianças revivem, ao longo do ano, eventos acontecidos nos anos anteriores, acessam yearbooks antigos, conversam sobre conquistas e vão nomeando lembranças, que mais tarde resultam na produção de um texto de memória coletivo, produto final do projeto.

É curioso perceber, segundo Camila, que esse resgate não se limita ao campo da nostalgia, mas dá base de sustentação emocional para contornar o novo. “Elas sentam para olhar yearbooks, registram legendas e conversam. Dessas legendas nasce o texto de memória, e ali elas realizam o quanto já viveram, conquistaram, o quanto são potentes e capazes para seguir.”

A be.Living entende que o corpo é lugar de aprendizagem. Por isso, ao longo do ano, o Blue vive experiências que contrastam com a própria trajetória: brincam na areia do Yellow Orange, sentam para ler livros curtinhos do Green, ocupam espaços que já não frequentavam há algum tempo. Sem discurso e sem pressa, o próprio corpo revela para a criança o seu crescimento, a mudança de repertório, de interesses e de presença no espaço escolar.

Camila reforça que, quando esse acontecimento passa pelo corpo, a criança não precisa que alguém anuncie o amadurecimento: ela sente, percebe e assume. “Quando eles vão brincar na areia dos menores ou sentam para ler livros mais curtinhos e simples, se dão conta de que o corpo já não cabe da mesma forma como foi um dia. O próprio corpo conta para a criança a sua história de crescimento e de amadurecimento.”

Logo no começo do ano, uma vivência ampliada na aula de Educação Física na unidade Moema – prédio do Ensino Fundamental, inaugura esse processo. Ao longo dos meses, são promovidos ensaios em tablado maior para a Festa Junina, acantonamentos e visitas frequentes à mesma unidade. O ano culmina na ida das crianças do Blue para entrevistar crianças do Year 1, onde as perguntas formuladas pelos próprios estudantes do Blue, nascidas de sua imaginação, encontram escuta e respostas reais que desarmam fantasias e acomodam expectativas.

Quando a escola cuida dessas perguntas e acolhe as angústias também em grupos espelhados em despedidas, como no encontro com o Year 5, a criança percebe que crescer não é um protocolo, é um movimento legítimo e compartilhado. “Tanto o Year 5, que está em transição para o ciclo 2 do Ensino Fundamental, quanto o Blue conversam, também entre si, sobre despedidas. Tudo isso ajuda a criança a ver que a mudança é grande, mas que, ao mesmo tempo, também pode ser leve.”

Camila pontua que é comum que as famílias cheguem ao Blue carregando expectativas sobre alfabetização. A escola realiza uma reunião anual com as famílias do grupo Red que ingressarão no Blue, para alinhar expectativas e tranquilizar o olhar dos responsáveis sobre o tempo pedagógico real da criança.

A coordenadora aponta que alfabetização é consequência de um trabalho iniciado em etapas anteriores. “Fazemos um encontro com as famílias para acalmar expectativas. Ansiedade existe e é natural do processo, mas é importante reiterar que o Blue não se resume à alfabetização. É preciso dar tempo ao processo. Quando a criança se reconhece potente, o próximo passo se torna mais calmo e apropriado.”

E é justamente por meio desse ritmo gradual e respeitoso que a escola garante a apropriação do novo espaço antes mesmo que ele seja vivido integralmente. Ao final do ano, Moema deixa de ser promessa e se torna experiência recente, espaço caminhável, território conhecido.

Camila destaca que a escuta das emoções, das ideias, das dúvidas e da participação ativa da criança nesse percurso dão a ela a sensação de pertencimento sobre o espaço e sobre si mesma. “A criança chega ao Year 1 não como quem cruza fronteira, mas como quem segue viagem. Não como quem apenas se despede, mas como quem se percebe capaz. O próximo passo deixa de ser susto e se torna sequência lógica de quem já se reconheceu grande e sabida o bastante para ocupar novos ciclos”.

Assim, a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, como desenhada pela be.Living, é menos um ponto final e mais um caminho preparado com lembrança, presença e apropriação. É um processo que respeita emoções, vínculos e descoberta gradual, para que as crianças encontrem o Year 1 com mais clareza, curiosidade e confiança sobre quem já se tornaram. “A intenção é garantir que as crianças cheguem lá com menos angústia e ansiedade, sabendo um pouquinho mais sobre o espaço e sobre a própria potência delas.”

O ano se encerra com uma lição muito profunda que pode ser levada para toda a vida: o futuro, quando sustentado pela percepção de si e dos caminhos percorridos, ganha leveza. Essa leveza vem da compreensão de que ciclos encerram e novos ciclos se abrem, e que entre eles, há passagens. “Quando a criança se vê potente no que fez ontem, ela conquista confiança para o amanhã. O futuro se torna passagem, e não abismo. É muito bonito testemunhar cada uma delas desenvolvendo autoconfiança e se apropriando de suas potencialidades.”