be.Reading: a experiência da leitura em comunidade

A leitura que nasce silenciosa, ganha nova vida quando compartilhada em voz alta, no encontro de diferentes olhares. Uma frase pode despertar a lembrança de uma sensação, outra pode trazer uma memória de infância ou a inquietação de uma pergunta nunca feita. É nesse espaço de troca, em que a experiência de ler deixa de ser apenas individual e torna-se coletiva, que acontece o be.Reading, o clube de leitura da comunidade be.Living. A proposta é convidar famílias, professoras e professores, colaboradoras e colaboradores, avós, amigos e todas as pessoas que amam boas histórias para encontros de afeto e reflexão, mediados pela escritora Ruth Manus.

Doutora em Direito Internacional pela Universidade de Lisboa, Ruth é autora de nove livros publicados no Brasil, Portugal e França. Entre eles estão Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas (2019), 10 histórias para tentar entender um mundo caótico (2020) e Guia Prático Antimachismo (2022). Já foi palestrante do TEDx e finalista do prêmio Jabuti. Nos encontros da be.Living, conduz as conversas com escuta, acolhimento e sensibilidade.

“Eu acredito muito no poder dos clubes do livro e do fato de debatermos ideias” – conta Ruth. “Não é apenas dedicar tempo à leitura, mas depois dedicar tempo a trocar impressões sobre o que aquilo significou, o que impactou em cada um de acordo com a sua experiência. Isso abre um lugar muito sensível, no qual todos nós ganhamos com as vivências dos outros.”

Essa experiência coletiva reverbera também dentro das casas. Para Ruth, o hábito de leitura em família é um espelho fundamental para crianças e adolescentes. “Quando o livro e a leitura fazem parte da rotina de uma família, a criança se sente integrada. É muito importante que o livro seja uma parte viva da casa”.

Como mediadora, Ruth se reconhece como facilitadora de um diálogo múltiplo, no qual cada pessoa traz uma bagagem diferente para a leitura. “Se eu parto da ideia de que a minha leitura é a única possível, perco a chance de abrir espaço para o diálogo e de aprender com os testemunhos das outras pessoas” – reflete.

As escolhas das obras e dos convidados também têm papel central na riqueza dos encontros. A curadoria do be.Reading privilegia diversidade cultural, social e geracional: de uma autora negra americana já falecida, passando por uma escritora francesa contemporânea, até um jovem autor brasileiro do Piauí. “Se nós lermos quatro livros de quatro homens brancos americanos, claro que vamos ter histórias interessantes, mas provavelmente não sairemos do lugar que já conhecemos. O mais interessante do clube do livro é nos transportar para realidades que não debateríamos de outra forma” – explica.

Além da diversidade, há o cuidado de equilibrar profundidade e acessibilidade, escolhendo obras que cabem na rotina, mas que levantam pontos sensíveis e provocadores. “Muitas vezes, um livro curto pode ser muito mais profundo do que um de 400 páginas. O que buscamos são textos que toquem em questões que abram nossos olhos para realidades diferentes e para percepções das nossas próprias vidas” – conta a escritora.

Um dos momentos marcantes lembrados por Ruth veio da leitura de “A Patroa”, obra que aborda a relação de uma filha com a mãe idosa em uma casa de repouso. “Falamos pouco sobre a nossa experiência como filhos na velhice de nossas mães e de nossos pais. Foi muito importante trazer isso para o debate, especialmente em uma comunidade em que muitas pessoas vivem essa fase do envelhecimento”.

Para Ruth, o efeito mais bonito do be.Reading é justamente esse. “As pessoas saem impactadas não só pela obra, mas pelo quanto é enriquecedor conversar sobre livros e ideias. Tenho certeza de que isso reverbera, que cada pessoa propaga reflexões e sentimentos para amigos, colegas, filhos, cônjuges, mães e pais. É como jogar uma pedrinha na água e ver as ondas se espalharem.”

No total, são 4 encontros do be.Reading ao longo do ano, e já passamos pela terceira edição de 2025. Quem ainda não participou é muito bem-vindo a se juntar a essa roda de leitura, que acolhe diferentes olhares e vozes. Mais do que discutir uma obra, cada encontro do be.Reading é um convite para dedicar tempo às ideias, às histórias e às pessoas. O que começa na solidão de cada leitora e leitor se transforma em uma experiência compartilhada potente, ganhando novas camadas por meio da escuta do outro e se espalhando como ondas de afeto, sensibilidade e reflexão para além dos muros da escola.