As primeiras notas começam e algo mágico acontece na sala de espetáculo. No encontro de vozes, gestos, sons e escutas, se alinhando instante a instante, a música se revela para o público. Um misto de processo de aprendizagem, ensaios e, também, de mistério e sintonia, como explica a professora de música da nossa escola, Amanda Ribeiro: “A música é uma arte performática, do momento presente: a partir do momento que a música começa, a arte está acontecendo. Quando a música acaba, aquele momento passou”. O que fica, no entanto, são os aprendizados, cheios de significados, e os sentimentos que atravessaram os que presenciaram a experiência. Por tudo isso, a apresentação de música de final de ano da be.Living ocupa um lugar especial no calendário da escola: ela é, ao mesmo tempo, uma síntese de aprendizados musicais construídos durante o ano, e também, celebração, arte e magia.
O que chega ao palco carrega um percurso longo e cuidadoso. Foram muitas aulas de música explorando ritmo, melodia, técnica instrumental e escuta sensível. “A apresentação de música envolve todos os elementos que estudamos nas aulas de música. Ao longo do ano, as crianças aprendem a tocar diferentes instrumentos, entram em contato com ritmos diversos experimentam percussões, melodias e harmonias”.
A professora conta que o repertório se constrói a partir de múltiplas matrizes culturais. “Trabalhamos muito com a música brasileira, mas também com músicas do mundo. Há um mergulho musical e cultural no continente africano, nos povos tradicionais, nos povos nativos do Brasil e da América Latina, além do contato com músicas contemporâneas e tradicionais, sempre ampliando escutas e repertórios”.
No segundo semestre, esse percurso ganha um recorte específico. Amanda passa a pensar o repertório também como apresentação, como um “show” que dialoga com quem assiste. “Eu penso no apelo que as músicas vão ter junto ao público, penso na importância e na relevância que essas músicas têm na história da música e o quanto elas são relevantes para a infância também.” A partir disso, o trabalho feito ao longo do ano se reorganiza para ganhar forma cênica, sonora e coletiva. Cada música é revisitada à luz do que já foi aprendido. “Quando vamos construir o arranjo de cada música, pensamos: o que nós aprendemos que podemos colocar nesse arranjo? Se naquele ano as crianças aprenderam xilofone, ele aparece. Se estudaram pandeiro, samba ou maracatu, esses elementos entram. “Eu vou construindo coletivamente os arranjos das músicas, sempre construindo junto com as crianças”, diz Amanda. Ela explica que assim, no dia da apresentação, elas não apenas cantam, mas tocam, fazem percussão corporal e se apropriam, de forma viva, dos conhecimentos musicais construídos coletivamente.
Neste ano, o repertório ganhou um sentido ainda mais especial. Em comemoração aos 25 anos da be.Living, a escolha das músicas seguiu um caminho diferente. “As escolhas das canções não passaram somente pelo critério de dialogar com o currículo de cada grupo. Desta vez, por ser um ano comemorativo, revisitamos canções que marcaram a história das apresentações dos últimos anos. Fizemos um apanhado das melhores músicas, segundo o meu critério e o de pessoas que acompanharam as apresentações ao longo dos anos. Não foi uma tarefa simples. Foi muito difícil escolher só 14 músicas”, conta Amanda, considerando o volume de repertórios já apresentados.
Entre essas escolhas, aparecem peças emblemáticas da história da música, como “Águas de Março, de Tom Jobim e “Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos, com letra do Ferreira Goulart”. O repertório também se abre para outras linguagens, como o rock. Uma música do Queen entrou como forma de ampliar ainda mais esse mosaico sonoro. “Ao trazer o Queen para o palco, as crianças entram em contato com outra estética musical, outra energia e outro contexto cultural, percebendo que a história da música é múltipla e que clássicos atravessam gerações, se reinventando a cada nova escuta”.
La Bamba também faz parte desse percurso. Por ser uma canção tradicional mexicana, de domínio público, ela abriu espaço para reflexões importantes entre as crianças. “O que é uma música tradicional? O que é uma música de domínio público? Uma música que é cantada há tanto tempo que ninguém sabe quem fez”, conta Amanda. A partir dessas questões, as crianças conversaram sobre tradição oral, pertencimento cultural e sobre como uma música pode atravessar gerações e ganhar diferentes versões. “Como um país inteiro canta uma música que ninguém sabe quem fez?”, provoca a professora. Mais do que aprender a cantar La Bamba, as crianças foram convidadas a compreender a música como herança coletiva, algo que pertence a todos e que se mantém vivo porque é compartilhado.
Mas antes de chegar ao palco, existe um trabalho profundo de preparação, que vai muito além do ensaio. Amanda ressalta a importância de buscar equilíbrio neste processo. “Ensaiar deve ser um percurso cuidadoso, prazeroso e dinâmico. As crianças precisam estar apropriadas da música, mas também precisam estar felizes com a música. Se não, a música passa a ser fardo.” O caminho passa por ouvir, cantar, tocar, estudar ritmos, revisitar letras, criar estratégias de memorização e, principalmente, manter o contato prazeroso com a música. “A gente vai fazendo um passeio significativo pelos elementos da música”, explica.
Esse passeio inclui também a contextualização histórica e cultural de cada obra. Uma das experiências mais marcantes deste ano, segundo a professora, foi o trabalho com “Trenzinho do Caipira”. Amanda apresentou Villa-Lobos às crianças como um compositor fundamental da música brasileira, que transitava entre a música de orquestra e a música popular. “Pensamos sobre o que é música de orquestra, o que é música popular e como essas coisas dialogam”, conta. Logo, a música se tornou ponto de partida para refletir sobre o território brasileiro, as paisagens, as viagens de trem, outras canções que falam de deslocamento e diferentes épocas históricas. Houve ainda o estudo da paisagem sonora. “Estudamos como ele pegou o som do trem, o som dessa paisagem, e incorporou isso na obra dele.”
Todo esse universo não aparece de forma explícita no palco, mas está presente na forma como as crianças cantam e tocam. “Tudo aquilo que a gente descobriu está presente ali dentro de cada criança, na memória e no afeto delas.” Para Amanda, quanto mais as crianças se apropriam da história e do significado cultural de uma música, mais elas a homenageiam quando cantam. “Quando a gente canta uma música, na verdade é uma homenagem que a gente está fazendo àquela música. E isso se reflete na emoção, na dedicação e na reverência com que elas se colocam em cena”.
A apresentação de música também revela uma das marcas centrais do trabalho da be.Living: a coletividade. “Nós somos uma escola, não somos uma escola de música”, afirma Amanda. O objetivo não é formar músicos profissionais, mas pessoas sensíveis ao mundo e ao outro. “Aqui, a música é meio, ela não é fim. É através dela que as crianças aprendem a se relacionar, dividir instrumentos, tocar juntas e perceber que fazer música em grupo exige escuta e cooperação.
Na prática, isso significa romper com a lógica da performance individual. “A gente aprende a tocar junto, e não mais rápido ou melhor que o outro. Não é o quanto eu faço aquilo super bem, mas o quanto eu consigo compartilhar aquilo com o meu grupo.” As crianças aprendem que tocar fora do pulso coletivo não fortalece o conjunto. Ao contrário, enfraquece. Esse aprendizado, segundo a professora, é valioso e leva tempo para ser compreendido.
Há um momento especialmente simbólico nesse processo: os ensaios gerais, quando grupos que ensaiam separadamente se encontram. “Na apresentação de música é todo mundo junto tocando e cantando a mesma música.” É ali que as crianças percebem que cada uma faz uma parte, mas todas constroem algo maior. “É mágico quando a gente vê que cada um está fazendo uma parte, mas todo mundo está fazendo a mesma música.” Instrumentos diferentes, vozes diferentes, funções diferentes se somam. Este ano, inclusive, a apresentação contou com a participação especial de uma sanfoneira, ampliando ainda mais a experiência sonora coletiva.
Essa vivência torna evidente um aprendizado essencial: ninguém faz tudo sozinho. “Na música, você não pode fazer tudo. É preciso que cada um ocupe seu lugar para que o conjunto exista. Quando a gente junta todas as partes, fica tão mais lindo, tão mais potente.” É essa percepção que transforma a apresentação em algo maior do que um espetáculo: ela se torna exercício de convivência, escuta e colaboração.
No dia da apresentação, a comunidade inteira se reuniu para assistir as crianças fazendo música e para celebrar os 25 anos de música na escola. Um momento que pode ser registrado em vídeo, mas que só existiu plenamente ali, naquele encontro. “Aquele momento em que as crianças estavam fazendo música é muito único” – enfatiza Amanda. Um instante construído ao longo de um ano inteiro de escutas, descobertas, histórias, afetos e encontros. E que, quando termina, deixa a sensação de que algo significativo foi vivido e construído junto, até o último acorde.
Assista ao vídeo da apresentação:



