A escola amplia a visão de mundo da criança. Para além de seu lar e do convívio com familiares, os espaços se expandem, novos rostos surgem e o cotidiano convida para novas vivências e interações. Aos poucos, o ambiente escolar deixa de ser apenas conhecido e passa a ser compreendido. Este é o propósito do projeto All about be.Living, realizado com as turmas do Green, da Educação Infantil.
Pensado como um projeto que se renova a cada ano, ele parte de um gesto simples e profundo: aproximar as crianças das pessoas que fazem parte da vida escolar. “Começou com a proposta de que as crianças pudessem conhecer as pessoas que compõem a nossa equipe, a nossa comunidade escolar”, explica a coordenadora pedagógica da Educação Infantil, Camila Maia. Esse movimento acontece justamente em um momento em que as crianças, por volta dos três anos, ampliam seus percursos dentro da escola, transitando por novos espaços e construindo outras relações.
Ao conhecer melhor quem está ao seu redor, a criança passa também a se sentir mais segura e autônoma. Saber a quem recorrer, antecipar pequenas soluções do cotidiano e reconhecer os caminhos da escola são aprendizagens que se constroem nesse processo. Aos poucos, elas vão compreendendo que podem agir diante de situações como buscar um papel para continuar um desenho, pedir um gelo na cozinha após um machucado ou encontrar, com ajuda, caminhos para resolver pequenos desafios do dia a dia. “Na medida em que conhecem mais as pessoas e entendem o que acontece nesse espaço, elas conseguem transitar com mais segurança, tanto pela previsibilidade como pelo conhecido”, explica Camila.
Ao longo dos últimos anos, o projeto passou por revisões importantes. Um olhar mais atento para o currículo e para as relações vividas dentro da escola trouxe novos questionamentos: O que as crianças estão aprendendo, de fato, ao observar os adultos? Que ideias sobre o mundo estão sendo reforçadas ou inspiradas à transformação?
A partir dessas reflexões, o projeto ganhou novas camadas. Em diálogo com as formações em “Educação para relações étnico-raciais”, a equipe passou a provocar as crianças a olhar para além das funções exercidas por cada pessoa da escola. O objetivo é ultrapassar a visão de “quem faz o quê” e para “quem são essas pessoas”.

As entrevistas realizadas pelas crianças com profissionais da escola, atividade que faz parte do projeto All about be.Living, tornaram-se um ponto central dessa transformação. Inicialmente focadas nas tarefas, as perguntas passaram a incluir interesses, histórias, brincadeiras e experiências de vida de nossas colaboradoras e nossos colaboradores. “A ideia agora é que as crianças conheçam essas pessoas para além do que fazem aqui dentro da escola, mas para quem elas são”, conta a coordenadora.
Assim, a Ana, da equipe de limpeza, pode compartilhar uma receita de pão que gosta de preparar, a Selene, da cozinha, pode contar das brincadeiras que marcaram sua infância, como o carrinho de rolimã, e o Elias, porteiro da escola, pode jogar bola com o grupo, retomando algo que também faz parte da sua história. Aos poucos, as crianças passam a conhecer gostos, memórias e interesses dessas pessoas, percebendo que cada uma delas carrega trajetórias, afetos e experiências para além do espaço da escola. O que se constrói, nesse encontro, é uma relação mais humana, mais próxima, que desloca o olhar da função para a pessoa, abrindo espaço para a desconstrução de estereótipos de forma natural e respeitosa.

Paralelamente, o projeto também convida as crianças a se perceberem como parte ativa do cuidado com o espaço coletivo. Pequenas situações do cotidiano tornam-se oportunidades de reflexão. “As crianças vão entendendo que todos somos responsáveis pelo cuidado da escola”, explica Camila. “Em vez de chamar alguém para resolver os problemas que acontecem, elas passam a buscar soluções, pedindo ajuda quando necessário e agindo com mais autonomia”.
Esse movimento ultrapassa os muros da escola. Uma pesquisa enviada às famílias propôs uma nova pergunta: quais são as responsabilidades das crianças em casa? O resultado foi revelador. “Algumas famílias se surpreenderam e perceberam que era o momento de incluir mais as crianças nas tarefas do cotidiano”, conta a coordenadora. A proposta, feita com cuidado e abertura, ampliou a reflexão também para o ambiente familiar, fortalecendo a ideia de responsabilidade compartilhada.
Esse olhar, que se constrói também em casa, reverbera nas relações vividas na escola. Ao se reconhecerem como parte ativa do cuidado com os espaços, as crianças passam a se relacionar de outra maneira com os adultos que ali estão. Em situações simples do cotidiano, como um suco que cai no chão, já não se trata de chamar a Ana para resolver, mas de procurá-la ou outro adulto para pedir um pano para que elas mesmas possam limpar. Pequenos gestos como esse revelam um deslocamento importante: o cuidado deixa de ser atribuído a uma única pessoa e passa a ser compreendido como uma responsabilidade compartilhada, vivida com mais respeito e consciência coletiva.
Outro aspecto importante do projeto é o início de uma sistematização do pensamento investigativo. Ao vivenciar situações-problema e buscar respostas, as crianças entram em contato com etapas de um processo de pesquisa: formulam perguntas, levantam hipóteses, entrevistam, escutam e constroem sentidos. “É um primeiro contato com um procedimento de pesquisa, de forma muito concreta e significativa”, explica Camila.
Tudo isso acontece em um momento em que as crianças estão plenamente capazes de iniciar esse tipo de construção. “São crianças de três anos que têm total competência para começar a pensar sobre isso. Ainda que nem tudo seja compreendido em sua totalidade, o convite à reflexão já produz deslocamentos importantes”, afirma.
Ao final, o projeto revela algo maior: a escola como um espaço de relações, onde aprender não está apenas em receber conteúdos, mas nas formas de estar com o outro, de cuidar do coletivo e de se reconhecer como parte de um ambiente compartilhado. No cotidiano do Green, conhecer a escola é, também, aprender a cuidar do mundo.



