Afeto no fazer pedagógico: um ponto de partida para 2026

Iniciar um ano letivo é sempre um gesto carregado de sentido. É quando nos reorganizamos, acolhemos novas perspectivas, revisitamos nossos fundamentos e reafirmamos aquilo que sustenta nosso fazer educativo. Na be.Living, a abertura de 2026 foi marcada por uma formação dedicada ao tema “Acolhimento, Escuta e Ação Docente”, realizada com as professoras e os professores da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, como um movimento intencional de alinhar práticas, relações e escolhas ao Projeto Político Pedagógico (PPP) de nossa escola.

Gabriela Fernandes, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental da be.Living, conta que o tema da formação surgiu de uma necessidade percebida pela gestão, especialmente após os últimos anos de um trabalho aprofundado de revisão e consolidação do Projeto Político-Pedagógico. “A nossa escola realizou, nos últimos anos, um trabalho muito profundo com o PPP, um projeto que é pautado pelo afeto. Para nossa escola, o afeto é o fio condutor do conhecimento. Por isso, é fundamental dedicar um tempo para retomar esse tema com as professoras e os professores”.

Gabi destaca que o trabalho docente é vivo, dinâmico e exigente. O cotidiano das professoras e dos professores envolve planejamento, execução, reflexão e tomada de decisões constantes, muitas delas realizadas fora do espaço escolar. Nesse contexto, quando a instituição define pilares como o afeto, o acolhimento e o protagonismo, ela assume também a responsabilidade de sustentar esses princípios por meio da formação contínua. “Quando uma escola tem pilares que sustentam o seu Projeto Político Pedagógico, é necessário voltar a esses temas e formar as professoras e os professores para isso. O afeto é um assunto que nunca sai do nosso radar, porque ele ancora o nosso PPP”, reforça.

A coordenadora aponta que toda formação que sustenta os fundamentos da escola precisa considerar diferentes dimensões. Há uma esfera institucional, que garante que o tema esteja presente nas formações; uma esfera curricular, que assegura espaço para que esses pilares se concretizem no currículo; e uma esfera pessoal, que diz respeito ao percurso formativo de cada educadora e educador. “Essa formação atende tanto a uma demanda institucional quanto curricular. Ela reafirma para a equipe a importância que a escola dá ao afeto e ao acolhimento em toda a ação docente e no trabalho de toda a equipe educadora”.

O primeiro encontro do processo formativo foi conduzido pela educadora convidada Rosa Silvia Lopes Chaves, que introduziu o afeto como dimensão estruturante da ação docente. 

Ao longo das reflexões, a escuta, que é uma ação pedagógica intencional que exige presença e disponibilidade, ocupou um lugar central. “Nós chamamos essa escuta de ‘escuta ativa’, porque precisamos estar de corpo presente para escutar a criança. Não se trata apenas de ouvir e responder, mas de nos permitir compreender os caminhos que a criança está trilhando no seu processo de aprendizagem”, explica.

Essa escuta é fundamental para que a escola cumpra uma de suas grandes responsabilidades: garantir as progressões de aprendizagem. Em grupos marcados pelo movimento e pelo barulho próprios da infância, a escuta individual se faz necessária. “O professor que não escuta as demandas da criança não consegue acompanhar individualmente o processo de aprendizagem. É a partir dessa escuta que ele pensa nas intervenções que vai fazer para caminhar junto com a criança ao longo da sua trajetória escolar”, afirma Gabriela, lembrando que, na be.Living, esse percurso começa no primeiro ano de vida e segue até os onze anos de idade. 

A formação também enfatizou a importância da educadora e do educador se perceberem, se escutarem e se localizarem afetivamente. Estar com as crianças exige presença genuína, disponibilidade emocional e organização interna. “A equipe educadora precisa estar pronta para estar com as crianças. Precisamos estar com o planejamento organizado, preparado para o dia, mas, sobretudo, precisamos estar de corpo e alma presentes, olhando nos olhos, escutando ativamente e nos comunicando de forma construtiva. Isso é fundamental para o processo de aprendizagem”, afirma a coordenadora.

Pensando na continuidade desse trabalho, a formação foi concebida como um encontro disparador. A partir dele, as coordenações da Educação Infantil e do Ensino Fundamental desenharam um processo formativo que acompanhará a equipe ao longo de todo o ano. Entre as ações concretas já realizadas está o contrato didático, no qual toda a equipe se compromete a estar presente, a se comunicar e a escutar.

Gabriela ressalta que esse compromisso precisa ser coletivo. A escola é um ambiente compartilhado, e a experiência da criança deve ser coerente em todos os espaços. “Não adianta a criança viver uma experiência de escuta e comunicação construtiva apenas dentro da sala de aula e não vivenciar isso nos momentos coletivos, como no parque ou no almoço. É necessário que a ação docente seja conjunta”, explica.

A prática pedagógica, segundo ela, nasce da articulação entre teoria e prática. As teorias educacionais que embasam a formação são constantemente relacionadas ao cotidiano escolar, orientando o planejamento e a organização da turma. Para garantir que esses princípios permaneçam vivos, a coordenação promove encontros quinzenais individuais com professoras e professores, retomando acordos e fortalecendo o trabalho formativo de base, além de reuniões semanais com toda a equipe, que sustentam coletivamente o Projeto Político-Pedagógico.

Durante os dias de formação, foram desdobradas muitas propostas significativas, incluindo atividades realizadas com cada equipe e a vivência “Além dos Muros da Escola”, com a visita à exposição “Corpo e Manifesto”, no CCBB. “Todas essas experiências convidaram as professoras e os professores a pensarem sobre o afeto, o acolhimento e a escuta, ampliando a capacidade de se colocar no lugar do outro. A visita à exposição, por exemplo, que apresenta narrativas sobre o corpo negro no mundo, convidou para exercitar empatia e sensibilidade. Quando conseguimos fazer esse movimento empático, acolhemos com mais tranquilidade e humildade as necessidades do outro”, diz Gabriela.

Um momento bastante marcante da formação foi a reconexão das educadoras e dos educadores com a própria infância. Eles foram convidados a retomar quem foram quando crianças, trazendo fotografias e memórias desse período. “Nos aproximamos desse tempo de infância para que ele esteja vivo em nossa memória e para que possamos dar o melhor acolhimento à infância que chega com as crianças”, explica Gabriela.

Assim, ao abrir 2026 com uma formação dedicada ao acolhimento, à escuta e à ação docente, a be.Living reafirma o afeto como fundamento do aprender, do ensinar e do conviver. Um afeto que se constrói no cotidiano, na presença, na escuta atenta e na responsabilidade compartilhada de educar crianças em sua inteireza.