Com uma trajetória marcada por sonhos, desafios e muita paixão pela educação, Patricia Pavan e Analivia Lacerda, diretoras da be.Living, compartilham, nesta entrevista, a história da escola, suas inspirações e os princípios que sustentam este projeto pedagógico. A conversa revela como a experiência pessoal de Patricia como estudante e o desejo de construir uma escola acolhedora e significativa inspiraram o nascimento e essência da be.Living, que completa 25 anos em 2025.
be.Sides: Patricia, como iniciou a sua história com a educação?
Patricia Pavan: Desde cedo, tive muitas dúvidas sobre a escola. Estudei em uma escola bastante tradicional. Gostava de ir por causa dos amigos, mas não compreendia o sentido da educação. As disciplinas pareciam desconectadas. Tive um desempenho ruim e repeti a sexta série, foi um processo doloroso.
Depois de um tempo fora do país, voltei e entrei em uma escola internacional. Foi quando surgiu uma pergunta muito forte: o que está por trás da Educação? Aquilo que eu tinha vivido não podia ser tudo. Esse questionamento me levou à Pedagogia, não por vocação, mas por necessidade. E ali comecei a descobrir um mundo novo, que finalmente fazia sentido.
be.Sides: A partir desse momento você começou a sua carreira como professora?
Patricia Pavan: Sim. No primeiro ano da faculdade, comecei em uma escola pequena, bilíngue. Depois, fui para uma maior, também bilíngue, mais reconhecida. Trabalhava o dia inteiro, estudava à noite. Me formei em 1999. Em 2000, abri a be.Living.
be.Sides: Foi rápido!
Patricia Pavan: Um meteoro! Mas eu tinha certeza. Queria uma escola com olhar atento à infância, individualizado, cuidadoso. Começamos em uma casa na Chácara Klabin.

be.Sides: E como foi este primeiro momento da be.Living, neste primeiro endereço?
Patricia Pavan: Desafiador. Na época, a educação bilíngue não era tão conhecida. Cada família precisava de uma explicação detalhada. Fomos construindo uma comunidade, uma família chamando a outra. E junto com elas, fui aprendendo a comunicar o projeto. Não basta concebê-lo — é preciso compartilhar. Depois de quatro anos, a casa ficou pequena. Como não achamos outro espaço na região, viemos para cá.
O quanto as frustrações que viveu como estudante influenciou no que a be.Living veio a ser como escola?
be.Sides: Patricia Pavan: Estudei em uma escola grande, tradicional. A be.Living nasceu com outro olhar: uma escola menor, para a infância, onde o acolhimento e a parceria são fundamentais. O que me faltou foi significado. O conhecimento não me atravessava. E a infância é isso: tudo o que se vive marca o corpo. Pensamos na escola considerando que marcas queremos deixar nas crianças.
be.Sides: E em que momento acontece a expansão para o Ensino Fundamental? Analivia, poderia falar um pouquinho sobre isso?
Analivia Lacerda: Entrei na gestão em 2009, quando ainda tínhamos só a Educação Infantil. As famílias pediam pelo Fundamental. Naquele ano, o “pré” virou o 1º ano do Fundamental, e precisávamos decidir: encerrar um grupo ou expandir? A escola completava 10 anos e eu tinha acabado de entrar como sócia, foi o momento certo. Ainda sem espaço definido, decidimos avançar. Em 2013, nos mudamos para Moema com 33 crianças, em um lugar que já havia sido escola, cheio de árvores.
Patricia Pavan: As famílias confiavam muito no nosso projeto, mas começavam a buscar escolas grandes para a transição. Vinham nos dizer: “E agora? Vamos sair daqui e ir para um lugar enorme?”. Sentimos uma cobrança carinhosa. Isso teve um peso importante na decisão de crescer.

be.Sides: E como foi para vocês a experiência deste nascimento? Do Ensino Fundamental?
Patricia Pavan: Até então, minha experiência era só na Educação Infantil. A Gabriela Fernandes, nossa atual coordenadora, tinha vivência com o Fundamental e nos incentivou. Buscamos apoio do Instituto Vera Cruz, que nos ajudou a construir um projeto coerente com o que já vínhamos fazendo. Não fazia sentido criar algo descolado. Foi uma construção a muitas mãos, com a equipe, com as famílias, e continua em movimento até hoje. A vantagem de sermos uma escola pequena é poder tomar decisões de forma mais ágil e cuidadosa.
be.Sides: O quanto o tempo e as coisas que acontecem no mundo vão influenciando e modificando a educação?
Patricia Pavan: A escola é o próprio tempo. O que acontece fora reverbera dentro, e vice-versa. Todo o trabalho pedagógico parte desse tempo histórico. Nosso Projeto Político-Pedagógico expressa ideais, mas sempre em diálogo com o presente. A criança já chega com uma bagagem, e olhamos para isso desde o primeiro dia. Ela transforma o ambiente, é produtora de cultura.
Temos uma escuta constante, e isso faz o projeto ser vivo. O que se dizia sobre sustentabilidade em 2000 é muito diferente do que discutimos hoje. Às vezes, somos nós que provocamos as crianças; outras vezes, são elas que nos trazem questões. A escola está atravessada por esse tempo.
be.Sides: Gostaria que vocês falassem um pouco sobre a importância das formações realizadas com a equipe educadora da be.Living.
Patricia Pavan: A formação é permanente. Avaliamos o contexto, os educadores, e identificamos onde investir. Temos temas anuais, mas a formação vai além, é sobre professores, indivíduos, escola.
Hoje, com duas unidades, temos o desafio de manter a coesão. Por isso criamos seis encontros formativos ao longo do ano, com toda a equipe. Partimos de um tema central e cada grupo pensa como ele se aplica às diferentes idades. Esse movimento ajuda a manter a coerência do projeto, respeitando as especificidades de cada ciclo.
Além disso, temos reuniões pedagógicas e encontros individuais, pois mesmo quem chega com muita experiência precisa conhecer a cultura da be.Living.
be.Sides: E qual a relação da escola com as famílias?
Patricia Pavan: É essencial. O desenvolvimento infantil acontece naturalmente, mas quando escola e família caminham juntas, tudo ganha mais sentido. Falar a mesma língua não é concordar com tudo, mas compartilhar valores.

A escola é espaço público, pensado para o bem comum. Cada um tem seu papel: a escola não substitui a família, e vice-versa. A presença das famílias é muito potente. Ver os pais por perto, acompanhando, aprendendo com as crianças, fortalece vínculos e amplia os repertórios.
Analivia Lacerda: Acreditamos na proximidade. Por isso oferecemos estacionamento gratuito, um cafezinho na entrada, eventos aos sábados. As famílias gostam, ficam, conversam. Também envolvemos os responsáveis em diversos projetos ao longo do ano. Criamos espaços para esses encontros acontecerem de verdade.

be.Sides: São 25 anos de história…Olhando para trás, vocês conseguem trazer algum momento marcante, que venha à memória de vocês, para compartilhar com os leitores e leitoras?
Analivia Lacerda: São infinitos momentos… Cada vez que uma família compartilha como a be.Living impactou a vida da criança e de todos ao seu redor, sentimos uma profunda gratidão. Esses retornos são um reconhecimento precioso do que construímos juntos. E mais do que isso: o próprio dia a dia na escola, com crianças curiosas, explorando, brincando, interagindo e investigando o mundo ao seu redor… isso, para mim, é um verdadeiro presente.
Patricia Pavan: Nós recebemos muitas famílias antigas, crianças que estiveram com a gente, que vêm nos visitar e nos dizer que fizemos a diferença, que a be.Living foi muito importante para elas. É muito marcante. Ficamos muito felizes com isso.




