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Fazer conversa paralela, mostrar o caderno para a professora, sentar com os colegas para realizar um trabalho em grupo, movimentar o corpo no espaço da sala de aula, vivenciar – todos os dias, a hora da entrada e a hora da saída… Quantas experiências significativas para o processo de construção do conhecimento se dão, naturalmente, no espaço físico da escola!

Quando a criança foi retirada do ambiente escolar e a aprendizagem passou a acontecer em casa, por meio do ensino remoto, foi preciso pensar em estratégias e rituais para que essas vivências promovidas pelo espaço da escola não sumissem, de repente, da vida da criança.

Na transição do ensino presencial para o ensino remoto, buscamos entender, por exemplo, como seria possível realizar trabalhos de ordem procedimental à distância e como a tecnologia poderia favorecer esse tipo de aprendizado. É o que explica a professora Débora Pacheco, do Year 2.

“No Year 2, é muito forte o trabalho procedimental. Isso foi algo que nos preocupou bastante em como faríamos no online. No segundo ano, eles aprendem a usar o caderno, a trabalhar em grupo, a organizar a rotina, organizar o tempo, organizar as fichas gráficas, a fazer letra cursiva… São muitos procedimentos que eles têm que aprender e parecia que era necessário estarmos o tempo todo ao lado deles, acompanhando de perto, para que esse trabalho acontecesse. A gente foi pensando em como seria possível usar a tecnologia para desenvolver essas coisas de um outro modo. Então, pensamos em como o Zoom poderia trazer, por exemplo, o procedimento de levantar a mão para não falar todo mundo ao mesmo tempo. Eu posso usar um emoji ou apertar um botão para avisar quando quero falar. Eu posso formar grupos de trabalho de um outro modo, com a possibilidade de compartilhar tela, de olhar para imagens, de construir um documento junto com todo mundo nessa tela compartilhada e de aprender como fazer isso sem atrapalhar o outro, quando estamos todos mexendo num mesmo documento. Então, fomos adaptando os procedimentos que aconteceriam na sala de aula – do levantar a mão, dos trabalhos em grupo, de como organizar uma atividade numa cartolina ou no caderno, enfim, a gente foi adaptando para o que a tecnologia pode oferecer e nos ajudar a continuar trabalhando esses procedimentos”.

A professora fala sobre a importância de inserir rituais no ensino remoto para que a criança não perca o vínculo com o espaço escolar. “É importante ter o horário da entrada, ou seja, a hora em que está todo mundo entrando no Zoom e o horário do Tchau, que é saída, com uma marcação bem forte de quando a gente tem que voltar, de falar as atividades do dia e dizer o que deu certo e o que deu errado. Organizar esse tempo, trabalhar com as crianças a importância do início e do fim, construir junto com elas um planejamento da semana, fazer o processo de separar todo o material junto com elas, elas tiram fotos da atividade do caderno, enviam para a professora e depois recebem um retorno… todos esses ritos, são formas de ajudar na aprendizagem dos procedimentos e de manter viva essa relação com a escola”.

Débora ressalta que, porque as crianças têm passado muito tempo sentadas na frente de um computador, foi preciso pensar especialmente no corpo delas, movimentá-los e colocá-los em outros espaços e situações. “Pensando nisso, toda segunda-feira, antes de começar o dia, trazemos sempre uma proposta de dança, de massagem, de alguma movimentação com o corpo para que, por mais que a intervenção esteja acontecendo por meio da tela, eles possam sair da postura de estar sentado olhando para o computador. Esse tem sido um ritual muito importante nesse momento em que eles não estão na sala de aula, que é um espaço físico onde eles brincam e se movimentam de um jeito muito diferente”.

Para não perder a relação com a escola e com as possibilidades de aprendizagem que ela gera para as crianças, as professoras estão criando diversas situações que trazem a lembrança sobre como as coisas acontecem no espaço da sala de aula, como descreve Débora. “Estamos propondo trabalhos em grupo e deixando-os um tempo sozinhos numa sala virtual para que eles tenham esse momento importante que acontece na sala de aula, em que o professor não está ao lado deles o tempo todo e eles têm um espaço para conversar entre eles, sem a nossa supervisão. A mesma coisa acontece com relação ao chat privado: o que temos feito é não proibir, estamos deixando que eles usem esse espaço, mesmo que o caos esteja acontecendo. As crianças têm necessidade de burlar regra, de ter conversa paralela. Faz parte do aprendizado. Quando a gente está com a tecnologia nas mãos, eu posso não deixar que a espontaneidade da criança aconteça. Eu posso silenciar os microfones, eu posso bloquear o chat e eles podem, forçosamente, não viver essas situações de falar todo mundo junto, de atrapalhar uma aula, o que no presencial não poderia ser evitado. Eu não posso silenciar as crianças falando. Então, esse é um cuidado que estamos tendo no ensino remoto: permitir que elas se expressem, que o caos possa acontecer dentro de uma aula online, que todo mundo corra o risco de falar ao mesmo tempo, que todo mundo escreva junto no chat e que fique confuso, que essas coisas todas possam acontecer para que eles sintam, verdadeiramente, a necessidade das regras. É lógico que as broncas acontecem também, porque elas são parte importante de um processo de ensino e aprendizagem que acontece na escola, mas a gente tem tomado esse cuidado para que as crianças possam viver a experiência escolar da maneira mais inteira possível dentro desse contexto remoto, provocando situações para que elas possam, inclusive, quebrar regras, pois isso faz parte da aprendizagem de convívio em grupo, faz pensar sobre a necessidade de construção de regras e sobre como é viver em sociedade”.